Como reduzir conflitos familiares depois da morte de um ente querido

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Luto pode desencadear disputas entre parentes, expondo ressentimentos antigos; especialistas recomendam abordar a morte de forma aberta e planejada e dão dicas de como ter conversas difíceis sobre herança e outros temas

Se deixasse o processo sucessório dos pais na mão das irmãs, a monja Agatha (nome fictício) provavelmente não teria direito a nada. Embora a lei civil brasileira estabeleça que a condição religiosa ou os votos monásticos não anulam o parentesco nem excluem o direito sucessório, suas irmãs entenderam diferente.

Para elas, o fato de o monastério ter recebido doações dos pais de Agatha como apoio à sua vida monástica configurava uma herança recebida em vida. E não adiantou argumentar que a parte da irmã religiosa iria inevitavelmente para o monastério após sua morte. Na conta dos familiares mais próximos, a monja merecia zero na partilha.

disputa judicial levou um bom tempo e teve um desfecho justo, mas o caminho do meio nunca aconteceu. Há mais de cinco anos, as irmãs não falam com a monja. “Nem o caminho espiritual nos livra dos dramas humanos”, avalia a psicanalista Flávia Lippi, fundadora do Instituto de Desenvolvimento Humano Lippi (IDHL).

Os dramas em questão seriam o luto e a herança envolvida. “As brigas que estouram após o velório não têm a ver com nenhuma doação em vida”, diz ela, “e sim com histórias abafadas, que finalmente encontram um palco para se manifestar.”

A história da monja é uma das mais de 30 que Flávia colheu, sob a condição do anonimato, para compor o livro Nunca é só por dinheiro, lançado pela editora Matrix. Mas a motivação nasceu no próprio seio familiar. Com a morte da mãe, em novembro de 2024, desavenças e acusações entre os parentes tomaram proporções bíblicas. “O livro surgiu de um desabafo”, diz. “Foi quando eu entendi que isso era algo que podia acontecer em qualquer família.”

De uma disputa acirrada por uma panela de pressão a uma empresa bilionária literalmente dividida ao meio por um muro, Flávia constatou que, em nenhum núcleo familiar, o motivo principal da discórdia era o dinheiro, mas sim ciúme, inveja, síndromes de abandono, doenças mentais não tratadas.

Ela lembra que o luto remove freios sociais e revela estruturas de personalidade que sempre estiveram ali. A morte, portanto, nem sempre une, amadurece, humaniza. Muitas vezes, o cenário é de regressão, com adultos esperneando como crianças tendo o luto como plataforma.

“Não é regra, mas famílias que já apresentavam rupturas de laços e dificuldade de comunicação desde antes do falecimento são aquelas em que há mais conflitos no pós-morte”, diz Lívia Possi, advogada de família e planejamento patrimonial.

Pela sua experiência com litígios nessa área, Lívia costuma comparar os mais conflituosos à Hidra de Lerna, uma figura da mitologia grega com várias cabeças de serpente que tem o poder de produzir duas cabeças no lugar da uma que foi cortada: “Quando você resolve uma parte do problema, aparecem outros dois, mais urgentes, para serem resolvidos”.

A tendência, diz Lívia, é que uma briga desse gênero se estenda até que todos se cansem da própria batalha – não só contra os demais herdeiros, mas também contra a morosidade do Judiciário.

Ou então quando percebem que o patrimônio comum está sendo diluído, seja pela má administração do inventariante, pela manutenção dos custos de um patrimônio engessado e/ou pelo custo da manutenção processual, que pode ser bastante elevado, se for levado em conta todo o aparato disponível para a realização de perícias, a interposição de recursos intermediários etc.

Se as rusgas já se instalaram, Flávia sugere a figura de um mediador, que trará a neutralidade necessária para tentar desatar o imbroglio. Mas alerta que é preciso escolher alguém – de preferência um profissional especializado ou terapeuta familiar – que não tenha como função decidir “quem está certo”, mas, sim, acolher os medos e demandas de cada parte.

“O mediador precisa estar fora da história emocional da família e ser preparada para suportar choro, raiva, silêncio e acusações sem tomar partido”, diz a especialista.

Flávia recomenda ainda que sejam estabelecidas regras para a mediação para que o processo não acaba desgastando ainda mais as relações familiares. “Ninguém interrompe, ninguém ameaça, ninguém usa informações íntimas para ferir o outro e todos terão o mesmo tempo de fala.”

Pessoas não aceitam a existência da morte, diz psicóloga

Pouco ajuda a negação da nossa sociedade ocidental moderna com relação à finitude. “As pessoas não querem falar sobre isso, não aceitam a existência da morte, mesmo diante do diagnóstico de uma doença grave”, diz a psicóloga Denise Stefanoni Combinato, professora no Instituto de Psicologia da Universidade Federal de Uberlândia (MG) e coordenadora do Grupo de Pesquisa, Morte e Cuidado “A mulher de pés descalços”, na mesma universidade.

Junte-se a esse desconjuro o fato de a família não ser uma instituição tão harmônica assim, com valores e opiniões muitas vezes conflitantes. “O luto é mais uma crise que se instala, uma mudança com a qual a família vai ter de lidar.”

Denise ressalta que a dificuldade para lidar com a morte não se restringe a pais e seus descendentes. Quando o luto envolve um período prévio de internação do ente querido, ela percebe que ainda há muito a fazer nesse atendimento multidimensional: “Profissionais da saúde que não têm formação nem atuam com cuidados paliativos, por exemplo, muitas vezes não sabem como ajudar a família na elaboração do luto antecipatório”.

Uma pesquisa publicada na revista Bioética em julho corrobora essa lacuna apontada pela psicóloga. Feita com 2.418 médicos candidatos à residência na Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), ela aponta que 9 em cada 10 médicos afirmam não estar preparados para dar más notícias e 4 em cada 10 nunca receberam treinamento para isso na faculdade. A comunicação de óbito, para eles, é o tipo de notícia mais difícil de dar.

Testamento e diretivas antecipadas podem reduzir conflitos

Para tentar cercar o problema, os especialistas falam em planejamento. “A melhor maneira de prevenir essas discussões e, ao mesmo tempo, respeitar os desejos da pessoa é construir documentos enquanto ela está lúcida, saudável e em condição plena de manifestar sua vontade a partir dos próprios valores”, afirma Lívia.

Para tanto, há o testamento, que abrange questões que devem surgir após o falecimento, e as Diretivas Antecipadas de Vontade, documento geralmente usado para registrar antecipadamente a quais tratamentos médicos a pessoa está disposta ou não a se submeter, caso esteja incapacitada de manifestar sua vontade por causa de uma doença grave, irreversível ou em estágio terminal.

Também conhecido como testamento vital, a diretiva é o tema central do doutorado de Lívia, que ela cursa na Université Jean Moulin Lyon 3, na França, em uma cotutela com a Faculdade de Direito do Largo São Francisco (FDUSP).

A advogada defende que o documento englobe muito mais do que decisões médicas, nomeando também procuradores para questões administrativas e financeiras, assim como gestores dos perfis de redes sociais.

Denise entende que muito se ganharia com a certeza sobre a intenção de doar órgãos e tecidos, por exemplo. Quando ela trabalhava em um hospital e abordava os familiares sobre esse ponto, facilitava demais quando a família sabia o desejo do parente a respeito. “Diante dessa indefinição, a doação se tornava mais uma decisão difícil, e não uma decisão afetuosa quanto a quem está esperando pelo órgão”, diz.

A doação ou não dos órgãos consta do Checklist Prático, um capítulo do livro de Flávia que visa “organizar a vida para proteger quem fica”. São tópicos que propõem a criação de diferentes pastas, como a dos imóveis, a de seguros, previdências e benefícios, a de representação e governança, a de animais, casa e cotidiano (quem cuidará da casa, das plantas, do pet), a de ritos cerimoniais, a de objetos e bem afetivos.

“Objetos carregam afeto congelado e, quando não há orientação, eles se transformam em armas emocionais”, sentencia a autora, recordando os irmãos entrevistados por ela que se digladiaram por causa de um tinteiro de mesa do pai.

A psicanalista recomenda ainda evitar desabafos com parentes, que só criariam uma onda maior na discussão. Em vez disso, sua proposta é intensificar as sessões de terapia para entender, entre outros pontos, qual a própria responsabilidade naquele contexto beligerante.

“Buscar a maturidade, saber quem nós somos, incluindo nosso lado sombra, é fundamental”, afirma. “Guerras traumáticas raramente acabam sozinhas; elas apenas se arrastam, passando de geração em geração, até que alguém tenha a coragem de sair da lógica da vitória e entrar na lógica da cura.”

Fonte: Estadão

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